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domingo, 21 de janeiro de 2024

 

 

 

O Anjo do Senhor no Antigo Testamento

 

3. O Anjo da Teofania

 

Este anjo é chamado de o anjo do Senhor, e o anjo da presença (ou face) de Javé. As seguintes passagens contêm referências a esse anjo: Gen 16:7 - o anjo e Hagar; Gen 18 - Abraão intercede com o anjo por Sodoma; Gen 22:11 - o anjo interpõe-se para impedir o sacrifício de Isaac; Gen 24:7, Gen 24:40 - Abraão manda Eliezer e promete proteção do anjo; Gen 31:11 - o anjo que aparece a Jacó diz:Eu sou o Deus de Betel.

Gen 32:24 - Jacó luta com o anjo e diz:Eu vi Deus face a face.

Gen 48:15 - Jacó fala de Deus e do anjo como idênticos; Ex 3 (Compare Atos 7:30) - o anjo aparece a Moisés na sarça ardente; Exo 13:21; 14:19 (compare Num 20:16)

Deus, ou o anjo, leva a Israel do Egito; Exo 23:20 - as pessoas são ordenados a obedecer ao anjo; Ex 32:34 com 33:17 (compare Isa 63:9) - Moisés implora a presença de Deus com o Seu povo; Josué 5:13 até 6:2 - o anjo aparece a Josué; Juizes 2:1-5, anjo fala para o povo; Jz 6:11 - o anjo aparece a Gedeão.

Um estudo dessas passagens mostra que quando o anjo e Javé, às vezes, são distintos um do outro, eles são com a mesma frequência, e, as mesmas passagens, mesclados entre si. Como isso pode ser explicado? É óbvio que nestas aparições não pode ser o próprio Deus Todo-Poderoso, a quem nenhum dos homens viu, nem pode ver. Na busca da explicação deve ser dada especial atenção a dois dos trechos citados acima. Em Exo 23:20 Deus promete enviar um anjo diante de Seu povo para levá-los à terra prometida, e eles são ordenados a obedecer-lhe e não provocá-lo; pois ele não irá perdoar sua transgressão, pois o meu nome está nele. Assim o anjo pode perdoar pecados, o que só Deus pode fazer, porque o nome de Deus, isto é, seu caráter, e, portanto, sua autoridade, estão no anjo. Além disso, na passagem de Ex 32:34 até 33:17, Moisés intercede pelo povo após a sua primeira violação do pacto, onde Deus responde: Eis o meu anjo que irá adiante de ti; e imediatamente depois Deus diz: Eu não vou subir no meio de ti. Em resposta a mais uma súplica, Deus diz: Minha presença irá contigo, e eu te darei descanso.

Aqui está uma distinção clara entre um anjo comum e o anjo que carrega consigo a presença de Deus. A conclusão pode ser resumida nas palavras de Davidson em sua “ Teologia do Antigo Testamento”: Em especiais providências podemos identificar a presença de Javé em influência e operação; em manifestações angélicas comuns, uma pessoa pode descobrir o Senhor presente em alguns lados do seu Ser, em algum atributo do Seu caráter; no anjo do Senhor Ele está plenamente presente como o Deus da aliança de Seu povo, para redimi-los.

A questão ainda permanece: Quem é o anjo teofânico? Para isso muitas respostas foram dadas, de que a seguir podem ser mencionadas: (1) Este anjo é simplesmente um anjo com uma comissão especial, (2) Ele pode ser uma descida momentânea de Deus em visibilidade; (3) Ele pode ser o Logos, uma espécie de pré-encarnação temporária da segunda pessoa da Santíssima Trindade. Cada um tem as suas dificuldades, mas a última é certamente a mais tentadora para a mente. No entanto, deve ser lembrado que na melhor das hipóteses são apenas conjecturas que tocam em um grande mistério. É certo que desde o início, Deus usou anjos em forma humana, com vozes humanas, a fim de comunicar-se com o homem; e as aparições do anjo de Javé, com a sua relação especial de redenção para o povo de Deus, mostrou o trabalho da auto-revelação divina que culminou com a vinda do Salvador, e são, portanto, um sombreamento prévio, e uma preparação para a revelação plena de Deus em Jesus Cristo. Mais do que isso, não é seguro prosseguir

Fonte: International Standard Bible Encyclopedia, de  James Orr, M.A., D.D., Editor General.

 

 

 

Author : Pe. A. Negromonte

 

O Padre (depois Monsenhor) Álvaro Negromonte foi um exímio educador brasileiro, que escreveu catecismos e outras obras assemelhadas com linguagem dirigida às várias idades. Sua obra foi motivo de estudos enfocando a habilidade didática e a metodologia do ensino. A seguir está transcrito o trecho sobre os anjos, extraído do livro A Doutrina Viva para o curso secundário.


OS ANJOS

 

Há, na criação, uma série gradativa de seres, que vai desde os simples minerais até às substâncias puramente espirituais. Destes últimos não poderíamos saber a existência por nossa razão apenas, mas a conhecemos pela Revelação. São os Anjos, que vamos estudar.

 

Existência dos Anjos


A Bíblia está cheia da existência dos Anjos, os quais aparecem desde o principio (ver cap. 3 do Gn). No. Antigo Testamento eles aparecem impedindo que Abraão sacrifique Isaac, consolando Agar no deserto (ver caps. 16 e.22 do Gn), alimentando Elias (1 Rs 19), protegendo os 3 meninos na fornalha (Dn 3). E em muitas outras passagens. O Novo Testamento se abre com a presença do Anjo Gabriel anunciando a Zacarias o nascimento de João Batista, e a nossa Senhora a Encarnação do Verbo (ver Lc 1). E enchem os Evangelhos até à Ascensão de Cristo. Nos Atos dos Apóstolos há várias aparições de Anjos (ver nos Evangelhos e nos Atos as aparições dos Anjos).

 

Natureza dos Anjos


Os Anjos são puros espíritos. São substâncias puramente espirituais. Foram criados por Deus para existirem sem corpo. São as criaturas mais perfeitas, porque têm uma natureza mais semelhante à de Deus (puro espírito). São, portanto, superiores ao homem, o qual é composto de espírito e matéria (alma e corpo).

 

Não é só por isto que os Anjos são superiores ao homem. São superiores pela inteligência. Eles conhecem a Deus, os outros Anjos e homens, de modo intuitivo, sem precisar raciocinar, como nós precisamos. Conhecem os futuros necessários, efeitos que estão contidos necessariamente nas suas causas, mas não conhecem os futuros livres, que dependem da nossa vontade. Também não conhecem os segredos do nosso coração, salvo se dermos deles qualquer demonstração.

 

São superiores também pela liberdade e pelo poder. S. Pedro diz que "os Anjos são maiores pela sua força e seu poder" (2 Pd 2, 11). Os fatos o mostram. Um anjo matou de uma vez 185 mil soldados dos Assírios (Is 37, 36); outro arrebatou Habacuc pelos cabelos e o levou para Babilônia (Dn 1;4, 35).

 

Um Anjo não está em todo lugar, como Deus. Mas pode agir em vários lugares ao mesmo tempo, dentro da esfera do seu poder, assim como um homem pode tocar ao mesmo tempo em vários objetos ao alcance de suas mãos.

 

O que dizemos aqui dos Anjos, também se entende dos demônios.

 

Coros angélicos


É grande o número dos Anjos. A Sagrada Escritura fala sempre do exército dos Anjos. Na sua prisão, nosso Senhor disse que podia pedir ao Pai e ele mandaria mais de 12 legiões de anjos em sua defesa (Mt 26, 53). O profeta Daniel, descrevendo o trono de Deus, diz que um milhão de anjos o serviam, e mil milhões o assistiam (Dn 7, 10).

 


Os Anjos estão divididos em 3 hierarquias, e cada uma delas em 3 coros. A primeira hierarquia é a dos que contemplam a Deus: Serafins, Querubins e Tronos. A segunda hierarquia se ocupa do governo do mundo: Dominações, Virtudes e Potestades. A terceira é encarregada de executar as ordens divinas: Principados, Arcanjos e Anjos (veja os "prefácios" das Missas).

 

Os demónios


Antes de confirmar os Anjos na graça, Deus os submeteu a uma prova. Quis o Senhor que eles tivessem mérito na felicidade que lhes reservava. Nem todos foram fiéis a esta prova. Alguns caíram, e foram imediatamente castigados por Deus, sendo precipitados no inferno. São por isso chamados anjos maus ou demônios.

Qual foi o pecado dos anjos maus? Parece ter sido a soberba, porque a Bíblia diz que "nela teve princípio toda perdição" (Tb 4, 14). O nome de são Miguel, que quer dizer "Quem como Deus?", parece também indicar que os anjos rebeldes quiseram ser iguais a Deus.


São João descreve, no Apocalipse, a grande batalha, em que são Miguel e os seus anjos venceram a Lúcifer com os dele, tendo estes sido precipitados do céu, onde não há mais lugares para eles (ver Apoc 12, 7-12).

 

Papel do demónio


1) Tentação. Os demônios procuram, de muitos modos, levar-nos ao pecado, por meio da tentação. Foi o que aconteceu com os nossos primeiros pais, com Judas e com Ananias (ver Jo 13, 2, 27 e At 5, 3). Ao próprio Jesus o demônio tentou (Mt 4, 3-10). E são Pedro nos adverte de que ele vive "em torno de nós, como um leão que ruge, buscando a quem devorar" (1 Pd 5, 8).

 

O demônio nenhum poder tem sobre a inteligência e a vontade do homem. Ele pode nos incitar ao pecado, mas não nos faz pecar: só pecamos se queremos. Mas ele pode agir diretamente sobre a nossa memória, imaginação e sobre os sentidos. Assim, mesmo contra a nossa vontade, podemos ter recordações e imagens más, e maus movimentos. E' claro que não pecamos se não queremos estas coisas. Deus nos dá sempre a força necessária para nos conservarmos.


2) Obsessão. O demônio pode também atacar os homens corporalmente, ao mesmo tempo em que os atormenta com graves tentações, na medida em que Deus permite. É o que se chama obsessão. Nestes casos, ele age sempre de fora (ver, sobre isto, o Livro de Jó) .

 

3) Possessão. Mas, na possessão, o demônio entra para o corpo da pessoa, e se apodera dele, e aí fica usando dos seus sentidos e membros, produzindo atos insólitos e maravilhosos. O Ritual Romano, dando as orações próprias para o exorcismo do demônio nestes casos, dá os sinais da possessão: "falar língua desconhecida, revelar coisas ocultas e distantes, mostrar força superior à idade e condição", etc. Os Evangelhos dão vários casos de possessão, em que o demônio maltrata os sujeitos, seja tirando-lhes a vista, a audição e a fala, seja os submetendo a tormentos corporais (ver os casos de possessão nos Evangelhos).

 

4) Astúcias. Inimigo da felicidade do homem, o demônio tem feito tudo para nos privar do bem. Um olhar pela história mostra os seus esforços para destruir a religião, a verdadeira liberdade, a civilização cristã, a paz, a moral, etc. Apodera-se dos grandes inventos (imprensa, cinema, rádio, aeroplano, etc.) para transformá-los em instrumentos do mal. Uma das maiores astúcias do demônio é apresentar o mal com um aspecto agradável, dando-lhe nomes atraentes como civilização, progresso, evolução dos tempos, e outras e fazer tudo isto de maneira a não se descobrir que é ele que está agindo.

 

O Anjo da Guarda


Para nos defender de todos os males do corpo e da alma, principalmente das tentações e perigos do demônio, Deus nos confiou a um Anjo, que costumamos chamar o Anjo da Guarda. A Bíblia mostra muitas vezes os Anjos protegendo e defendendo os homens. E Jesus disse, falando das crianças: "Os seus Anjos vêem sempre a face do Pai (Mt 18, 20) (ver o Livro de Tobias, todo ele cheio da assistência do Anjo são Rafael ao moço). [...] É ensino comum que também as comunidades têm os seus Anjos da Guarda. [...] Também as nações, as dioceses, as comunidades religiosas e outras instituições de muito vulto terão os seus Anjos da Guarda.

 

Para viver a doutrina,


O meu destino é o mesmo dos Anjos: amar e louvar a Deus, eternamente, no céu. Para isto, tenho de viver uma vida igual à dos Anjos: amar e servir a Deus. Ser santo é meu dever.

 

Para isto sou ajudado constantemente pelo meu Anjo da, Guarda. Não desprezarei este auxilio. Atenderei às boas sugestões, para segui-las; encomendar-me-ei aos seus favores junto de Deus; lembrar-me-ei sempre da sua presença, para não fazer nada que lhe desagrade.

 

Nas tentações não me esquecerei de pedir-lhe que venha em. meu auxilio: ele ajudou a vencer o anjo rebelde que me tenta. Mas também não facilitarei com o demônio, a quem procurarei vencer pela vigilância e pela oração: "Vigiai e orai"...

 

A liturgia lembra os Anjos: o Confiteor, o Prefácio.

 

No meu batismo renunciei a Satanás e a tudo o que lhe pertence, para me consagrar a Jesus Cristo. Agora, Satanás não descansa: quer reconquistar a minha alma, destruindo a vida sobrenatural, o estado de graça. Para não recair no poder do demônio, me confessarei amiúde, serei assíduo à oração e à mortificação, e, principalmente, comungarei freqüentemente. A Comunhão é o "pão' dos Anjos". Pela comunhão serei como os Anjos.

 

 

 

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 Como são os anjos?

 

Diác. Joshua Sequeira, E.P.

 

Ao falar sobre os anjos, com muita facilidade vem-nos à mente a clássica representação de um misterioso jovem de bela aparência, trajando uma longa e alva túnica. Não podemos considerá-la uma imagem errada, visto que nas próprias Escrituras eles são assim figurados, como por exemplo, no episódio de Tobias.

 

Já em nossa época, as aparições de Fátima foram precedidas de algumas intervenções angélicas. O Anjo da Paz apareceu três vezes aos pastorinhos e foi assim descrito mais tarde pela Irmã Lúcia, uma das videntes: "Começamos a ver (...) uma luz mais branca que a neve, com a forma de um jovem transparente, mais brilhante que um cristal atravessado pelos raios do sol. À medida que se aproximava, íamos-lhe distinguindo as feições: um jovem dos seus 14 a 15 anos, de uma grande beleza. Estávamos surpreendidos e meio absortos." A descrição da Irmã Lúcia pouco revela a respeito dos seres angélicos, apenas aumenta o mistério que os cerca.

 

Mesmo na Sagrada Escritura, não há elementos precisos sobre sua natureza e atributos; o que se conhece é deduzido de sua atuação, nas missões a eles confiadas por Deus junto aos homens.

 

Quem são, afinal, os anjos? Que predicados possuem? A resposta, nós a encontramos nos escritos de um dos autores que mais a fundo tratou do assunto: São Tomás de Aquino, o Doutor Angélico. Com base em sua doutrina, vejamos algumas das interessantes questões relativas aos anjos.

 

Os anjos são mais numerosos que os homens?

 

Ao criar, Deus teve em vista "a perfeição do Universo como finalidade principal" (1), pois tinha intenção de espelhar o supremo Bem, ou seja, Ele mesmo. Por isso, fez em maior número os seres mais elevados. E os espíritos celestes, os quais superam em dom e qualidade qualquer ser corporal, foram criados em tal quantidade que, perto deles, todas as estrelas do firmamento não passam de um punhadinho de pedras preciosas.

 

Todos os homens - desde Adão até o último a nascer no fim do mundo - são poucos em relação às miríades de puros espíritos que espelham tão perfeitamente o Criador dos homens e dos anjos. É com grande veracidade que Dionísio confessou humildemente: "Os exércitos bem-aventurados dos espíritos celestes são numerosos, superando a medida pequena e restrita de nossos números materiais" (2).

 

Os anjos são todos iguais?

 

Segundo o Doutor Angélico, as criaturas devem representar a bondade de Deus. Mas nenhuma criatura - nem sequer Maria Santíssima! - é capaz de representar suficientemente toda a bondade divina. Por isso, Ele criou múltiplos e distintos seres. Assim, cada indivíduo representa um aspecto diferente do Bem Supremo, e um suprirá aquilo que no outro não se encontra..

 

Os seres criados - se postos em escala, de inferior a superior - formam uma imensa cadeia, onde o conjunto de diversos graus, cada qual mais requintado, dá uma noção mais completa e arquitetônica da Suma Perfeição do que qualquer um deles individualmente (3).

 

Ademais, na medida em que as criaturas se aproximam do Bem Supremo, as diferenças entre elas se multiplicam, para melhor espelhar a riqueza infinita dos dons de Deus. Deste modo, a extrema variedade do mundo angélico supera tanto a do mundo físico que este, comparativamente, parece empalidecido, pobre e até monótono! Entre os anjos, não há indivíduos semelhantes, agrupados em famílias ou raças, como ocorre no gênero humano.

 

Cada um difere do outro, como se fossem espécies diversas (4).

 

São Tomás de Aquino, baseando-se nas Escrituras, divide-os em três hierarquias e nove coros: "Isaías fala dos Serafins; Ezequiel, dos Querubins; Paulo, dos Tronos, das Dominações, das Virtudes, das Potestades, dos Principados; Judas fala dos Arcanjos, enquanto o nome dos Anjos está em muitos lugares da Escritura" (5).

 

Enquanto São Dionísio explica a divisão da hierarquia angélica em função de suas perfeições espirituais, São Gregório o faz de acordo com seus ministérios exteriores: "Os Anjos são aqueles que anunciam as coisas menos importantes; os Arcanjos, os que anunciam as mais importantes; as Virtudes, por elas se realizam os milagres; as Potestades, pelas quais se reprimem os maus poderes; os Principados, que presidem os próprios espíritos bons" (6).

 

De que modo os anjos podem influenciar os homens?

 

Os anjos podem influenciar profundamente os homens, embora o façam sempre discretamente, pois a humildade também é uma virtude angélica.

 

Quantas vezes, uma boa inspiração tem origem num anjo! Ou quando o pressentimento de algum perigo grave leva a pessoa a tomar medidas e escapar de um acidente ou livrar-se de um grande dano, certamente foi algum solícito anjo que zelou pelo bem de seu protegido.

 

Mas os anjos exercem um importante papel, sobretudo no que diz respeito à fé, como nos ensina o Doutor Angélico: "Dionísio prova que as revelações das coisas divinas chegam aos homens mediante os anjos. Essas revelações são iluminações. Portanto, os homens são iluminados pelos anjos" (7).

 

"Pela ordem da Divina Providência - continua São Tomás - os inferiores se submetem às ações dos superiores. Assim como os anjos inferiores são iluminados pelos superiores, assim os homens, inferiores aos anjos, são por eles iluminados.

(...) Por outro lado, o intelecto humano, enquanto inferior, é fortalecido pela ação do intelecto angélico" (8).

 

É verdade que tenho um anjo da guarda para me proteger?

 

Ao tratar deste ponto, o Doutor Angélico cita o comentário de São Jerônimo às palavras do Divino Mestre: "seus anjos [dos pequeninos] no Céu contemplam sempre a face de meu Pai" (Mt 18, 10). "Grande é a dignidade das almas - afirma São Jerônimo -, pois, ao nascer, cada uma tem um anjo delegado à sua guarda" (9). Assim, cada homem recebe um príncipe da corte celeste que nunca o abandona, por mais culposas ou pavorosas que sejam as situações pelas quais passe. Tal como se reza na conhecida oração ao anjo da guarda (Santo Anjo do Senhor) ele rege, guarda, governa e ilumina o seu protegido.

 

O anjo ilumina o homem para incliná-lo ao bem ou comunicar-lhe a vontade divina (10) e o protege contra os assaltos do demônio. Sobretudo, o anjo continua sempre na presença de Deus, mesmo estando ao lado de seu protegido, intercedendo continuamente por ele.

 

1) Suma Teológica I, q.50, a.3 resp.
2) De Caelesti Hierarchia, cap.14, in MIGNE, PG, 3, 321 A.
3) cf. I, q. 47, a. 1e 2.
4) cf. I, q. 50, a. 4.
5) I, q.,108, a.,5 s.c.
6) cf. I, q 108, a.,5 resp.
7) I, q. 111 a. 1 s.c.
8) I, q. 111, a.1 resp.
9) MIGNE, PL, 26, 130 B.
10) cf. I, q. 111, a. 1.

(Revista Arautos do Evangelho, Set/2007, n. 69, p. 22 e 23)

 

 

Anjos

 

Serafins

 

O nome serafim vem do hebreu saraf (שרף), e do grego, séraph, que significam "abrasar, queimar, consumir". Também foram chamados de ardentes ou de serpentes de fogo. É a ordem mais elevada da esfera mais alta. São os anjos mais próximos de Deus e emanam a essência divina em mais alto grau. Assistem ante o Trono de Deus e é seu privilégio estar unido a Deus de maneira mais íntima. Mantém a ordem do cosmo e são descritos em Isaías como cantando perpetuamente o louvor de Deus e tendo seis asas. Seu regente é Metatron.

O Pseudo-Dionísio diz que sua natureza ígnea espelha a exuberância de sua atividade perpétua e infatigável, e sua capacidade de inflamar os anjos inferiores no cumprimento dos desígnios divinos, purificando-os com seu fogo e iluminando suas inteligências, destruindo toda sombra. Pico della Mirandola fala deles em sua Oração sobre a Dignidade do Homem (1487) como incandescentes do fogo da caridade, e modelos da mais alta aspiração humana.

 

Querubins

 

Do hebreu כרוב - keruv, ou do plural כרובים - keruvim, os querubins são seres misteriosos, descritos tanto no Cristianismo como em tradições mais antigas às vezes mostrando formas híbridas de homem e animal. Os povos da Mesopotâmia tinham o nome karabu e suas variantes para denominar seres fantásticos com forma de touro alado de face humana, e a palavra significa em algumas daquelas línguas "poderoso", noutras "abençoado".Tem por regente o anjo Raziel.

No Genesis aparece um querubim como guardião do Jardim do Éden, expulsando Adão e Eva após o pecado original. Ezequiel os descreve como guardiães do trono de Deus e diz que o ruflar de suas asas enchia todo o templo da divindade e se parecia com som de vozes humanas; a cada um estava ligada uma roda, e se moviam em todas as direções sem se voltar, pois possuíam quatro faces: leão, touro, águia e homem, e eram inteiramente cobertos de olhos, significando a sua onisciência. Mas as imagens querubins que Moisés colocou sobre a Arca da Aliança tinham forma humana, embora com asas.

 

S ão Jerônimo e Santo Agostinho interpretam seu nome como "plenitude de sabedoria e ciência". A partir do Renascimento passaram a ser representados muitas vezes como crianças pequenas dotadas de asas, chamados putti (meninos) em italiano. Têm o poder de conhecer e contemplar a Deus, e serem receptivos ao mais alto dom da luz e da verdade, à beleza e à sabedoria divinas em sua primeira manifestação. Estão cheios do amor divino e o derramam sobre os níveis abaixo deles.

 

Tronos ou Ofanins

 

Os Tronos têm seu nome derivado do grego thronos, que significa "anciãos". São chamados também de erelins ou ofanins, ou algumas vezes de Sedes Dei (Trono de Deus), e são identificados com os 24 anciãos que perpetuamente se prostram diante de Deus e a Seus pés lançam suas coroas. São os símbolos da autoridade divina e da humildade, e da perfeita pureza, livre de toda contaminação.

 

Tradições esotéricas cristãs os identificam com os Senhores da Chama da Teososfia ou os Elohim na escola Rosacruz, elevados espíritos que trabalham para o desenvolvimento e iluminação da mente humana, agindo como guardiãos da humanidade. São regidos por Zaphkiel.

 

Dominações

 

As Dominações ou Domínios (do latim dominationes) têm a função de regular as atividades dos anjos inferiores, distribuem aos outros anjos as funções e seus mistérios, e presidem os destinos das nações. Crê-se que as Dominações possuam uma forma humana alada de beleza inefável, e são descritos portando orbes de luz e cetros indicativos de seu poder de governo. Sua liderança também é afirmada na tradução do termo grego kuriotes, que significa "senhor", aplicado a esta classe de seres.

 

São anjos que auxiliam nas emergências ou conflitos que devem ser resolvidos logo. Também atuam como elementos de integração entre os mundos materiais e espirituais, embora raramente entrem em contato com as pessoas.Seu regente é Zadkiel.

 

Virtudes

 

As Virtudes são os responsáveis pela manutenção do curso dos astros para que a ordem do universo seja preservada. Seu nome está associado ao grego dunamis, significando "poder" ou "força", e traduzido como "virtudes" em Efésios 1:21, e seus atributos são a pureza e a fortaleza. O Pseudo-Dionísio diz que eles possuem uma virilidade e poder inabaláveis, buscando sempre espelhar-se na fonte de todas as virtudes e as transmitindo aos seus inferiores.

 

Orientam as pessoas sobre sua missão. São encarregados de eliminar os obstáculos que se opões ao cumprimento das ordens de Deus, afastando os anjos maus que assediam as nações para desviá-las de seu fim, e mantendo assim as criaturas e a ordem da Divina providência. Eles são particularmente importantes porque têm a capacidade de transmitir grande quantidade de energia divina. Imersas na força de Deus, as Virtudes derramam bênçãos do alto, freqüentemente na forma de milagres. São sempre associados com os heróis e aqueles que lutam em nome de Deus e da verdade. São chamados quando se necessita de coragem.

 

Potestades

 

As Potestades ou Potências são também chamados de "condutores da ordem sagrada". Executam as grandes ações que tocam no governo universal. Eles são os portadores da consciência  de toda a humanidade, os encarregados da sua historia e de sua memória coletiva, estando relacionados com o pensamento superior - ideais, ética, religião e filosofia, além da politica em seu sentido abstrato.

Também são descritos como anjos guerreiros completamente fiéis a Deus. Seus atributos de organizadores e agentes do intelecto iluminado são enfatizados pelo Pseudo-Dionísio, e acrescenta que sua autoridade é baseada no espelhamento da ordem divina e não na tirania. Eles têm a capacidade de absorver e armazenar e transmitir o poder do plano divino, donde seus nome.

Os anjos do nascimento e da morte pertencem a essa categoria. São também os guardiões dos animais

 

Principados

 

Os Principados, do latim principatus, são os anjos encarregados de receber as ordens das Dominações e Potestades e transmiti-las aos reinos inferiores, e sua posição é representada simbolicamente pela coroa e cetro que usam. Guardam as cidades e os países. Protegem também a fauna e a flora. Como seu nome indica, estão revestidos de uma autoridade especial: são os que presidem os reinos, as províncias, e as dioceses, e velam pelo cultivo de sementes boas no campo das ideologias, da arte e da ciência.

 

Arcanjos

 

O nome de arcanjo vem do grego αρχάγγελος, arkangélos, que significa "anjo principal" ou "chefe", pela combinação de archō, o primeiro ou principal governante, e άγγελος, aggělǒs, que quer dizer "mensageiro". Este título é mencionado no Novo Testamento por duas vezes e a esta ordem pertencem os únicos anjos cujos nomes são conhecidos através da Bíblia: Miguel, Rafael e Gabriel. Miguel é especificamente citado como "O" arcanjo, ao passo que, embora se presuma pela tradição que Gabriel também seja um arcanjo, não há referências sólidas a respeito. Rafael descreve a si mesmo como um dos sete que estão diante do Senhor, classe de seres mencionada também no Apocalipse.

Considerado canônico somente pela Igreja Ortodoxa da Etiópia, o Livro de Enoque fala de mais quatro arcanjos, uriel, Ituriel, Amitiel e Baliel, responsáveis pela vigilância universal durante o período dos Nefilim, os "anjos caídos". Contudo em fontes apócrifas estes são por vezes ditos como querubins. A igreja Ortodoxa faz de Uriel um arcanjo e o festeja com Rafael, Gabriel e Miguel na Synaxis de Miguel e os outros Poderes Incorpóreos, em 21 de Novembro.

 

Seu caráter de mensageiros, ou intermediários, é assinalada pelo seu papel de elo entre os Principados e os Anjos, interpretando e iluminando as ordens superiores para seus subordinados, além de inspirar misticamente as mentes e corações humanos para execução de atos de acordo com a vontade divina. Atuam assim como arautos dos desígnios divinos, tanto para os Anjos como para os homens, como foi no caso de Gabriel na Anunciação a Maria. A cultura popular faz deles protetores dos bons relacionamentos, da sabedoria e dos estudos, e guerreiros contra as ações do Diabo.

 

Anjos

 

Os anjos são os seres angélicos mais próximos do reino humano, o último degrau da hierarquia angélica acima descrita e pertencentes à sua terceira tríade. A tradição hebraica, de onde nasceu a Bíblia, está cheia de alusões a seres celestiais identificados como anjos, e que ocasionalmente aparecem aos seres humanos trazendo ordens divinas. São citados em vários textos místicos judeus, especialmente nos ligados à tradição Merkabah. Na Bíblia são chamados de מלאך אלהים (mensageiros de Deus), מלאך יהוה (mensageiros do Senhor), בני אלוהים (filhos de Deus) e הקדושים (santos). São dotados de vários poderes supernaturais, como o de se tornarem visíveis e invisíveis à vontade, voar, operar milagres diversos e consumir sacrifícios com seu toque de fogo. Feitos de luz e fogo,  sua aparição é imediatamente reconhecida como de origem divina também por sua extraordinária beleza

 

Anjos caídos

 

Na teologia protestante e católica, o Anjo Caído ou Anjo Decaído é um anjo que cobiçando um maior poder, acaba se entregando "às trevas e ao pecado". O termo "anjo caído" indica que é um anjo que caiu do Paraíso. O Anjo Caído mais famoso é o próprio Lúcifer, também conhecido por interpretações erradas como Satanás ou Diabo. A idéia de anjos caídos fornece a falsa explicação para a existência do inferno e de demónio na religião católica, já que segundo algumas escrituras o inferno, o mal e o demónio existem antes dos Anjos Caídos.

Os Anjos Caídos são bastante comuns em histórias de conflitos entre o bem e o mal.

Junto com Lúcifer, vários anjos caídos se instalaram na terra, pois tinham livre acesso ao inferno e a Terra. Segundo a Bíblia, há textos que afirmam vários deles terem procriado com humanos e dado origem a uma nova raça chamada de neefilins (ou mais conhecidos como Hibrídos). Cogita-se também que eles tenham sumido após o Grande Dilúvio, que teria sido produzido justamente com essa intenção, porém, por causa de suas passagem diretas inferno-terra, se salvaram e continuam aqui.

 

É importante lembrar que são nove os anjos caídos mais conhecidos, e que nem todos são malignos como muitos dizem. Dos nove anjos caídos:

  • Três dos anjos foram expulsos por grandes ambições
  • Dois por amar
  • Um por ter ajudado Lúcifer a conseguir o poder: Azazel

Um não se sabe a razão, acredita-se que ele foi expulso simplesmente por ter ajudado Lúcifer no início da revolta

 

Aparência

Existem várias imagens de um Anjo Caído, algumas muito parecidas com a de um "Anjo Luminoso". Entre elas, podemos citar: um homem com grandes e negras asas de morcego; um anjo sem a sua auréola e com as asas de penas negras; um homem com a metade direita com asas de anjo e a metade esquerda com asas de demónio, um anjo bom com uma asa quebrada e até mesmo como um anjo comum, porém sem o carisma e a graça angelical deste.

 

Primeira Lição

Prolegômenos Gerais

Senhor e Irmão:

Posso conferir-vos este título posto que buscais a verdade na sinceridade de vosso coração e que para a encontrar não tem medido sacrifícios.

 

A verdade, sendo a essência do que é, não é difícil de encontrar: ela está em nós e nós estamos nela. Ela é como a luz e os cegos não a vêem.

O Ser é. Isto é incontestável e absoluto. A idéia exata do Ser é a verdade, seu conhecimento é a ciência; sua expressão ideal é a razão; sua atividade é a criação e a justiça.

O senhor disse que quer ter fé. Para isto basta saber e amar a verdade. Pois a verdadeira fé é a adesão inabalável do espírito às deduções necessárias da ciência no infinito conjetural.

As ciências ocultas são as únicas que dão a certeza, porque elas tomam por base as realidades e não os sonhos. Distinguem em cada símbolo religioso a verdade da mentira. A verdade é a mesma em toda parte e a mentira (a "roupagem" da verdade) varia segundo os lugares, as épocas e as pessoas.

Estas ciências são em número de três: a Cabala, a Magia e o Hermetismo.

A Cabala, ou ciência tradicional dos Hebreus poderia ser chamada de matemática do pensamento humano. É a álgebra da fé. Resolve, com suas equações todos os problemas da alma como se fossem equações, isolando as incógnitas. Dá às idéias a nitidez e a rigorosa exatidão dos números; seus resultados são, para a mente, a infalibilidade (sempre relativa na esfera dos conhecimentos humanos) e a paz profunda para o coração.

A Magia, ou ciência dos magos teve como representantes na antiguidade os discípulos e talvez os mestres de Zoroastro. É o conhecimento das leis secretas e particulares da Natureza que produzem as forças ocultas, os ímãs, quer naturais ou artificiais, que podem existir mesmo fora do mundo dos metais. Em uma palavra, para empregar uma expressão moderna, é a ciência do magnetismo universal.

O Hermetismo é a ciência da natureza oculta nos hieróglifos e símbolos do mundo antigo. É a procura do princípio da vida pelo sonho (para aqueles que ainda não chegaram) da realização da grande obra, a reprodução pelo homem do fogo natural e divino que cria e regenera os seres.

Eis aí, senhor, as coisas que desejais estudar: seu círculo é imenso, porém seus princípios são muito simples e estão contidos nos números e nas letras do alfabeto. "É um trabalho de Hércules, que parece uma brincadeira de crianças", dizem os mestres da ciência sagrada.

 

As disposições necessárias ao êxito neste estudo compreendem uma grande retidão de julgamento e uma grande independência da mente. É preciso se desfazer de todos os preconceitos e idéias preconcebidas. É por isso que Cristo dizia: "Se não tiverdes a simplicidade de uma criança, não entrareis em Malkuth, isto é, no reino da ciência".

Começaremos pela Cabala, cuja divisão é: Bereschit, Mercavah, Gematria e Temurah.

Vosso na sagrada ciência.

 

Segunda Lição

A Cabala Objeto e Método

Senhor e Irmão:

A proposição que deveis fazer-vos ao estudar a Cabala é chegar à paz profunda, através da tranqüilidade do espírito e paz do coração.

A tranqüilidade do espírito é uma conseqüência da certeza; a paz do coração vem da paciência e da fé.

Sem a fé, a ciência conduz à dúvida; sem a ciência, a fé conduz à superstição. As duas unidas produzem a certeza e, para uni-las é necessário jamais confundi-las. O objeto da fé é a hipótese e chega a converter-se em certeza quando a hipótese exige a evidência ou as demonstrações da ciência.

A ciência é comprovada com fatos. As leis são inferidas da repetição dos fatos. A generalidade dos fatos em presença de tal ou qual força demonstra a existência das leis. As leis inteligentes são necessariamente desejadas e dirigidas pela inteligência. A unidade das leis faz supor a unidade da inteligência legisladora. A esta inteligência, que estamos obrigados a supor segundo as obras manifestas, mas que não é possível definir, é que chamamos Deus!

A minha carta chegou a vossas mãos; eis aqui um fato evidente; a minha escrita foi reconhecida, bem como meu pensamento, e deduzistes disso que fui eu quem vos escreveu. É uma hipótese razoável, porém a hipótese necessária é a de que alguém escreveu a carta. Poderia ser apócrifa, porém não tendes razão para supô-lo. Se pretendêsseis que a carta tivesse caído do céu, estaríeis beirando o absurdo, estabelecendo uma hipótese absurda.

Eis, portanto, segundo o método cabalístico, como se forma a certeza:

Evidência

Certeza

Demonstração científica

Hipótese necessária

Hipótese razoável

Probabilidade

Hipótese duvidosa

Dúvida

Hipótese absurda

Erro

 

Seguindo este método, o espírito adquire uma verdadeira infalibilidade, posto que afirma o que sabe, crê naquilo que necessariamente deve supor, admite as suposições razoáveis, examina as suposições duvidosas e afasta as suposições absurdas.

Toda a Cabala está contida no que os mestres chamaram as trinta e duas vias e as cinqüenta portas. As trinta e duas vias são trinta e duas idéias absolutas e reais ligadas aos signos dos dez números da aritmética e às vinte e duas letras do alfabeto hebraico.

Eis aqui estas idéias:

Números (Sephiroth):

1. - Potência suprema (Kether)

2. - Sabedoria absoluta (Hochmah)

3. - Inteligência infinita (Binah)

4. - Bondade (Chesed)

5. - Justiça ou rigor (Gueburah)

6. - Beleza (Tiphereth)

      7. - Vitória (Netzah)

8. - Eternidade (Hod)

9. - Fecundidade (Yesod)

10 - Realidade. (Malkuth)

  

Letras:

Letras do Alfabeto Hebraico

Cartas do Tarô

}

1- Aleph - Pai

1- O Mago

P

2- Beth - Mãe

2- A Papisa

O

3- Ghimel - Natureza

3- A Imperatriz

I

4- Daleth - Autoridade

4- O Imperador

U

5- He - Religião

5- O Sacerdote

Y

6- Vau - Liberdade

6- O Enamorado

T

7- Zain - Propriedade

7- A Carruagem

R

8- Cheth - Repartição

8- A Justiça

E

9- Theth - Prudência

9- O Eremita

W

10- Iod - Ordem

10- Roda da Fortuna

"

11- Caph - Força

11- A Força

L

12- Lamed - Sacrifício

12- A Enforcado

K

13- Mem - Morte

13- A Morte

H

14- Num - Reversibilidade

14- A Temperança

F

15- Samech - Ser universal

15- O Diabo

D

16- Hain - Equilíbrio

16- A Torre

A

17- Phé - Imortalidade

17- A Estrela

18- Tsade - Sombra e Reflexo

18- A Lua

N

19- Coph - Luz

19- O Sol

B

20- Resh - Reconhecimento

20- O Julgamento

C

21- Shin - Fogo

21- O Louco

Z

22- Tau - Síntese

22- O Mundo

 

Vosso na sagrada ciência.

 

Terceira Lição

Uso do Método

Senhor e Irmão:

Na lição anterior falei tão-somente das trinta e duas vias; falarei depois das cinqüenta portas.

As idéias expressas pelos números e pelas letras são realidades incontestáveis. Tais idéias encadeiam-se e se combinam como os números. Procede-se logicamente de um ao outro. O homem é o filho da mulher, porém a mulher procede do homem como o número da unidade. A mulher explica a natureza; a natureza revela a autoridade, cria a religião que serve de base à liberdade e que faz o homem dono de si mesmo e do universo, etc. (Procurai um Tarô; creio, porém que tendes um.) Disponde em duas séries de dez cartas alegóricas, numeradas de um a vinte e um. Vereis então todas as figuras que explicam as letras. Quanto aos números, do um ao dez, encontrareis neles a explicação repetida quatro vezes, com os símbolos de paus ou cetro do pai; copas ou delícias da mãe, espadas ou combate do amor e ouros ou fecundidade. O Tarô se encontra no livro hieroglífico das trinta e duas vias e a explicação sumária dele encontra-se no livro atribuído ao patriarca Abraão, que se chama Sepher-Yetzirah.

O sábio Court de Gebelin foi o primeiro que adivinhou a importância do Tarô, a grande chave dos hieróglifos hieráticos. Encontraram-se os símbolos e os números nas profecias de Ezequiel e de São João. A Bíblia é um livro inspirado, porém o Tarô é o livro inspirador, Também foi chamado de roda, rota, de onde se deduziram as formas tarô e torá. Os antigos rosacruzes conheciam-no e o marquês de Suchet fala dele em seu livro acerca dos iluminados.

Deste livro é que surgiram nossos jogos de cartas. As cartas espanholas ainda possuem os principais signos do Tarô primitivo e são utilizados para jogar o jogo do hombre, ou do homem, reminiscência vaga do uso primitivo de um livro misterioso que contém as sentenças reguladoras de todas as divindades humanas.

Os Tarôs antigos eram medalhas, de onde se originaram mais tarde os talismãs. As clavículas ou pequenas chaves de Salomão eram compostas de trinta e seis talismãs contendo setenta e duas estampas análogas às figuras hieroglíficas do Tarô. Essas figuras, alteradas pelos copistas, encontram-se ainda nas antigas clavículas manuscritas que se encontram nas bibliotecas. Existe um desses manuscritos na Biblioteca Nacional de Paris e um outro na Biblioteca do Arsenal. Os únicos manuscritos autênticos delas são os que mostram a série dos trinta e seis talismãs com os setenta e dois nomes misteriosos; os demais, por mais antigos que sejam, pertencem aos delírios da magia negra e contém apenas mistificações.

Vede, para a explicação do Tarô, o meu Dogma e Ritual da Alta Magia.

Vosso na sagrada ciência.

 

Quarta Lição

A Cabala

Senhor e Irmão:

Bereschith quer dizer "gênese"; Merkavah significa "carro" em alusão às rodas e aos animais misteriosos de Ezequiel.

Bereschith e Merkavah resumem a ciência de Deus e do Mundo.

Digo "ciência de Deus" e, portanto, Deus não é infinitamente desconhecido. Sua natureza escapa completamente a nossas investigações. Princípio absoluto do ser e dos seres, não pode ser confundido com os efeitos que produz e pode-se dizer, afirmando completamente sua existência, que não é nem o não-ser, nem o ser. Fato que confunde a razão sem extraviá-la e nos afasta definitivamente da idolatria.

Deus é o único postulatum absoluto de toda ciência, a hipótese absolutamente necessária que serve de base a toda certeza. Eis aqui como nossos antigos mestres estabeleceram cientificamente esta hipótese correta da fé: o Ser é. No Ser está a vida. A vida manifesta-se pelo movimento. O movimento perpetua-se pelo equilíbrio das forças. A harmonia resulta da analogia dos contrários.

Existe, na natureza, lei imutável e progresso indefinido, mudança perpétua nas formas, indestrutibilidade da substância; e isto é o que se encontra estudando o mundo físico.

A metafísica apresenta leis e fatos análogos, na ordem intelectual ou na moral, o verdadeiro, imutável, de um lado; do outro, a fantasia e a ficção. De um lado, o bem que é o verdadeiro; de outro, o mal que é o falso, e destes conflitos aparentes surgem o julgamento e a virtude. A virtude compõe-se de bondade e justiça. Quando boa, a virtude é indulgente; quando justa, é rigorosa. Ela é boa porque é justa e justa porque é boa; ela se mostra bela.

Esta grande harmonia do mundo físico e do mundo moral, não podendo ter uma causa superior a si própria, revela-nos a existência de uma sabedoria imutável, princípios e leis eternas e de uma inteligência infinitamente criativa. Sobre esta sabedoria e sobre esta inteligência, inseparáveis uma da outra, repousa esta potência suprema que os hebreus chamam a coroa. A coroa e não o rei, porque a idéia de um rei implicaria a de um ídolo. A potência suprema é, para os cabalistas, a coroa do universo, e a criação inteira é o reino da coroa ou, se o senhor preferir, o domínio da coroa.

Ninguém pode dar aquilo que não tem, e nós podemos admitir virtualmente na causa o que se manifesta nos efeitos.

Deus é, portanto, a potência ou coroa suprema (Kether), que repousa sobre a sabedoria imutável (Chochmah) e a inteligência criadora (Binah); nele estão a bondade (Chesed) e a justiça (Gueburah), que são o ideal da beleza (Tiphereth). Nele estão o movimento sempre vitorioso (Netzah) e o grande repouso eterno (Hod). Sua vontade é uma criação contínua (Yesod) e seu reino (Malkuth) é a imensidade que povoa a universo.

Detenhamo-nos aqui: conhecemos Deus!

Vosso na sagrada ciência.

 

Quinta Lição

A Cabala II

Senhor e Irmão:

Este conhecimento racional da divindade, escalonado nas dez cifras que compõem os números, vos oferece o método completo da filosofia cabalística. O método compõe-se de trinta e dois meios ou instrumentos de conhecimento que se denominam as trinta e duas vias, e de cinqüenta objetos, aos quais pode-se aplicar a ciência, e que se chamam as cinqüenta portas.

A ciência sintética universal considera-se como um templo com trinta e duas vias de acesso e cinqüenta portas.

Este sistema numérico, que também poderia ser chamado decimal, porque sua base é dez, estabelece, pelas analogias, uma classificação exata de todos os conhecimentos humanos. Nada é mais engenhoso, e também nada é mais lógico nem mais exato.

Esse número dez aplicado às noções absolutas do ser na ordem divina, metafísica e natural, repete-se três vezes, o que dá trinta para os meios de análise; acrescentai a silepse e a síntese, a unidade que começa por se propor à mente e aquela do resumo universal, e o senhor terá as trinta e duas vias.

As cinqüenta portas constituem uma classificação dos seres em cinco séries de dez, que abarca todos os conhecimentos possíveis e reina sobre todos os ramos do saber humano.

Mas não é suficiente ter encontrado um método matemático exato. Para ser perfeito é necessário que esse método seja progressivamente revelador, isto é, que ele nos dê o meio de tirar exatamente todas as deduções possíveis para obter os conhecimentos novos e de desenvolver o espírito, sem deixar nada ao capricho da imaginação.

Isto é o que se obtém pela Gematria e pela Temurah que são as matemáticas das idéias. A Cabala tem sua geometria ideal, sua álgebra filosófica e sua trigonometria analógica. É dessa forma que obriga a natureza, de certo modo, a revelar seus segredos.

Adquiridos estes altos conhecimentos, passa-se às últimas revelações da Cabala transcendental e estuda-se no Shemhamphorash, a origem e a razão de todos os dogmas.

Eis aí, senhor e amigo, o que devemos aprender. Veja se isso não vos assusta; minhas cartas são curtas, mas são resumos bastante concisos e que dizem muito em poucas palavras. Deixei um espaço bastante longo entre as minhas cinco primeiras lições para vos dar tempo de refletir; posso escrever-lhe com maior freqüência, se desejar.

Acredite, senhor, em meu ardente desejo de lhe ser útil.

Vosso, de todo coração, na sagrada ciência.

ELIPHAS LEVI

 

Sexta Lição

A Cabala III

Senhor e Irmão:

A Bíblia deu ao homem dois nomes. O primeiro é Adão, que significa saído da terra ou homem de terra; o segundo é Enos ou Enoque, que significa homem divino ou elevado até Deus. Segundo a Gênese, é este Enos quem primeiro fez homenagens públicas ao princípio dos seres, e este Enos, o mesmo que Enoque, foi, segundo dizem, elevado vivo ao céu após ter gravado sobre duas pedras, que se chamam as colunas de Enoque, os elementos primitivos da religião e da ciência universal.

Este Enoque não é um personagem, mas uma personificação da humanidade, elevada ao sentimento da imortalidade, pela religião e pela ciência. Na época designado pelo nome de Enos ou de Enoque, o culto de Deus apareceu sobre a terra e o sacerdócio começou. Na mesma época começa a civilização com a escritura e os monumentos hieráticos.

O gênio civilizador que os hebreus personificam em Enoque os egípcios chamaram Trismegisto e os gregos Kadmos ou Cadmus, aquele que, sob os acordes da lira de Anfion, viu as pedras vivas de Tebas erguerem-se e alinharem-se por si mesmas.

O livro sagrado primitivo, o livro que Postel chamou a Gênese de Enoque, é a fonte primeira da Cabala ou tradição ao mesmo tempo divina, humana e religiosa. Aí nos aparece, em toda sua simplicidade, a revelação da inteligência suprema à razão e ao amor do homem, a lei eterna regulando a expansão infinita, os números na imensidade e a imensidade nos números, a poesia na matemática e a matemática na poesia.

Quem acreditaria que o livro inspirador de todas as teorias e de todos os símbolos religiosos seria conservado até nossos dias sob a forma de um jogo composto por cartas bizarras? Nada é mais evidente entretanto; e Court de Gebelin, seguido depois por todos aqueles que estudaram seriamente o simbolismo dessas cartas, foi no século passado o primeiro a descobri-lo.

O alfabeto e os dez signos dos números, eis certamente, o que há de mais elementar nas ciências. Reuni a isso os sinais dos quatro pontos cardeais do céu ou das quatro estações, e terá o livro de Enoque inteiro. Porém, cada signo representa uma idéia absoluta ou, se o senhor preferir, essencial.

A forma de cada algarismo e de cada letra tem sua razão matemática e sua significação hieroglífica.

As idéias, inseparáveis dos números, seguem, adicionando-se, dividindo-se ou multiplicando-se, etc., o movimento dos números e adquirem sua exatidão. O livro de Enoque é, enfim, a aritmética do pensamento.

Vosso na santa ciência.

ELIPHAS LEVI

 

Sétima Lição

A Cabala IV

Senhor e Irmão:

Court de Gebelin vislumbrou, nas vinte e duas chaves do Tarô, a representação dos mistérios egípcios e atribuiu sua invenção a Hermes ou Mercúrio Trismegistos, que era também conhecido por Thaut ou Toth. É certo que os hieróglifos do Tarô se encontram nos antigos monumentos do Egito; é certo que os signos deste livro, traçados em conjuntos sinóticos sobre monolitos ou sobre tábuas metálicas semelhantes à tábua isíaca de Bembo (N. dos T. - Estas inscrições eram feitas em lâminas de cobre e representavam os mistérios de Ísis e da maior parte das divindades egípcias), eram reproduzidos separadamente sobre pedras gravadas ou em medalhas, que originaram mais tarde os amuletos e os talismãs. Separavam-se, assim, as páginas do livro, infinito em suas diversas combinações para se reunir, transpor e dispor de uma maneira sempre nova, para se obterem os oráculos inesgotáveis da verdade.

Possuo um destes antigos talismãs, trazido do Egito por um viajante amigo. Representa o binário dos Ciclos ou, vulgarmente, o "dois de ouros". É a expressão figurada da grande lei da polarização e do equilíbrio, produzindo a harmonia pela analogia dos contrários; eis como esse símbolo é figurado no Tarô que possuímos, e que ainda encontramos à venda:

S

A medalha que tenho está um pouco desgastada pelo tempo; é do tamanho de uma moeda de cinco francos, mas um pouco mais grossa. Os dois ciclos polares estão representados exatamente como no nosso Tarô italiano, com uma flor de lótus e uma auréola ou nimbo.

A corrente astral, que separa e atrai ao mesmo tempo os dois focos polares, está representada, em nosso talismã egípcio, pelo bode de Mendes, colocado entre duas víboras análogas às serpentes do caduceu. No reverso da medalha, vê-se um adepto ou um sacerdote egípcio que, substituindo o bode de Mendes entre os dois ciclos do equilíbrio universal, conduz por uma estrada margeada de árvores o bode tornado manso como um simples animal, sob a bengala do homem que imita Deus.

Os dez signos dos números, as vinte e duas letras do alfabeto hebraico e os quatro signos astronômicos das estações constituem o sumário e o resumo de toda a Cabala.

Vinte e duas letras e dez números dão as trinta e duas vias do Sepher Yetzirah, quatro origina a Mercavah e o Shemamphorash.

É simples como um brinquedo de crianças e complicado como os mais árduos problemas de matemática pura.

É ingênuo e profundo como a verdade e como a natureza.

Esses quatro signos elementares e astronômicos são as quatro formas da esfinge e os quatro animais de Ezequiel e de São João.

Vosso na sagrada ciência.

ELIPHAS LEVI

 

Oitava Lição

A Cabala V

Senhor e Irmão:

A ciência da Cabala torna impossível a dúvida em matéria de religião, por ser ela a única que concilia a razão com a fé, mostrando que o dogma universal formulado de maneiras diversas, porém no fundo sempre o mesmo, é a expressão mais pura das aspirações do espírito humano esclarecido por uma fé necessária. Ela faz compreender a utilidade das práticas religiosas que, fixando a atenção, e fortificam a vontade, lançando igualmente uma luz superior sobre todos os cultos. Prova que o mais eficaz de todos os cultos é aquele que por sinais adequados aproxima, por assim dizer, a divindade do homem, fazendo com que ele a veja, toque e, de certa forma, incorpore. Basta dizer que se trata da religião católica.

Esta religião, tal como se apresenta ao vulgo, é a mais absurda de todas, porque é a mais revelada. Emprego esta palavra no seu verdadeiro sentido: revelare; re-velar, velar de novo. O senhor sabe que no Evangelho é dito que por ocasião da morte de Cristo o véu do Templo se rasgou por completo e todo trabalho dogmático da Igreja através dos tempos tem sido o de tecer e bordar um novo véu.

É verdade que os próprios guardiões do santuário, por haverem desejado ser príncipes, perderam há muito tempo as chaves da alta iniciação. Isto não impede que a letra do dogma seja sagrada e os sacramentos eficazes. Disse em meus livros que o culto cristão católico é a alta magia regulada e organizada pelo simbolismo e a hierarquia. É uma combinação de auxílios oferecidos à debilidade humana para afirmar sua vontade no bem.

Nada foi esquecido, nem o templo misterioso e sombrio nem o incenso que tranqüiliza e exalta ao mesmo tempo, nem os cantos prolongados e monótonos que colocam o cérebro em um semi-sonambulismo. O dogma, cujas formas obscuras parecem o desespero da razão, serve de barreira às petulâncias de um crítico inexperiente e indiscreto. Parecem insondáveis, a fim de melhor representarem o infinito. Os próprios ofícios, celebrados numa língua que a massa popular não entende, preenchem o pensamento daquele que ora e o deixam encontrar na oração tudo o que está em relação com as necessidades do espírito e do coração. Eis aí por que a religião católica se assemelha à ave fênix da fábula, que se sucede de século em século e renasce continuamente de suas cinzas. Este grande mistério da fé é simplesmente um mistério da natureza.

Pareceria um enorme paradoxo dizermos que a religião católica é a única que pode ser justamente chamada de natural; e, contudo, isso é verdade; pois só ela satisfaz plenamente essa necessidade natural do homem, que é o sentimento religioso.

Vosso na santa ciência.

ELIPHAS LEVI

 

Nona Lição

A Cabala VI

Senhor e Irmão:

Se o dogma cristão-católico é completamente cabalístico, deve-se dizer o mesmo dos grandes santuários do mundo antigo. A lenda de Krishna, tal como a relata o Bhagavadam, é um verdadeiro Evangelho, similar ao nosso, porém mais ingênuo e brilhante. As encarnações de Vishnu são dez, como os Sefiroths da Cabala e formam uma revelação, de certo modo mais completa que a nossa. Osíris, morto por Tífon, depois ressuscitado por Ísis, é o Cristo renegado pelos judeus, depois glorificado na pessoa de sua mãe. A Tebaida é a grande epopéia religiosa que deve ser colocada ao lado do grande símbolo de Prometeu. Antígona é o tipo de mulher divina, tão pura quanto Maria. Em todas as partes o bem triunfa pelo sacrifício voluntário, após ter sofrido por algum tempo os assaltos desiguais da força fatal. Os próprios ritos são simbólicos e se transmitem de religião para religião.

As tiaras, as mitras, as sobrepelizes figuram em todas as grandes religiões. Depois se deduziu que todas eram falsas, quando, em verdade, falsa é a conclusão. A verdade é que a religião é una como a própria humanidade, progressiva como ela e permanecendo sempre a mesma, transformando-se continuamente. Se, para os egípcios, Jesus Cristo se denomina Osíris, para os escandinavos Osíris é Balder, morto pelo lobo Jeuris, mas Voda ou Odin lhe devolve a vida e as Valkírias servem-lhe hidromel no Valhala. Menestréis, druidas, bardos, cantavam a morte e a ressurreição de Tarenis ou Tetenus, distribuíam a seus fiéis o agárico sagrado, como nós fazemos com o buxo bendito nas festas do solstício de estio, e rendiam culto à virgindade, inspirado nas sacerdotisas da ilha do Sena.

Podemos, portanto, em plena consciência e com inteira razão, cumprir os deveres que nos impõe nossa religião materna. As práticas são atos coletivos e repetidos com intenção direta e perseverante. Semelhantes atos são sempre benéficos e fortificam a vontade, espécie de ginástica que nos conduz ao fim espiritual que queiramos alcançar. As práticas mágicas e os passes magnéticos não têm outro objetivo e dão resultados análogos aos das práticas religiosas, ainda que sejam mais imperfeitos.

Quantos homens não têm a energia para fazer o que desejam ou devem fazer? Há mulheres que se consagram sem desânimo a trabalhos tão repugnantes e penosos como os das enfermeiras e educadoras. De onde tiram a força? Das pequenas práticas repetidas. Rezam todos os dias o seu ofício e seu terço e fazem de joelhos a oração e o exame particular.

Vosso na santa ciência.

ELIPHAS LEVI

 

Décima Lição

A Cabala VII

Senhor e Irmão:

A religião não é uma servidão imposta ao homem, é um auxílio que se lhe oferece. As castas sacerdotais trataram, o tempo todo, de explorar, vender e transformar este auxílio em jugo insuportável; a obra evangélica de Jesus tinha por objeto separar a religião do sacerdote ou pelo menos colocar o sacerdote na posição de ministro ou servidor da religião, dando à consciência do homem toda a liberdade e razão. Vede a parábola do bom samaritano e estes preciosos textos: "A lei se fez para o homem e não o homem para a lei. Desgraçados aqueles que prendem e impõem, sobre as espáduas dos outros, fardos que gostariam de tocar apenas com as pontas dos dedos, etc., etc." A Igreja oficial declara-se infalível no Apocalipse, a chave cabalística dos evangelhos, e há no cristianismo, sempre, uma igreja oculta ou Joanita que, respeitando totalmente a necessidade da Igreja oficial, conserva do dogma uma interpretação diferente da que lhe dá o vulgo.

Os templários, os rosacruzes, os Franco-Maçons de alto grau pertenceram todos, antes da revolução francesa, à Igreja, da qual Martinez Pasqually, Saint-Martin e até Mme, de Krudemer foram os apóstolos no século XVIII.

O caráter distintivo desta escola é evitar a publicidade e não se constituir, nunca, em seita dissidente. O conde José de Maistre, esse católico tão radical, era, ainda que não se acredite, simpático à sociedade dos Martinistas e anunciava uma regeneração próxima do dogma por luzes que emanavam dos santuários do ocultismo. Existem todavia sacerdotes fervorosos que estão iniciados nas doutrinas antigas, e um bispo, entre outros, falecido recentemente, pediu-me que lhe ensinasse cabala. Os discípulos de Saint-Martin tomaram o pseudônimo de filósofos desconhecidos, e os discípulos de um mestre moderno muito conhecido não tiveram necessidade de tomar nome algum, pois o mundo não suspeitava da existência deles. Jesus disse que a levedura deve ocultar-se no fundo da vasilha que contém a massa para trabalhar dia e noite em silêncio até que a fermentação invada lentamente toda a massa que deve formar o pão.

Um iniciado pode, com simplicidade e sinceridade, praticar a religião em que haja nascido, porque todos os ritos representam diversamente um único e mesmo dogma; porém não deve abrir o fundo de sua consciência mais que a Deus e ninguém deve saber suas crenças mais íntimas. O sacerdote não pode julgar o que o próprio Papa não compreende. Os signos exteriores do iniciado são a ciência modesta, a filantropia sem ostentação, a uniformidade de caráter e a mais inalterável bondade.

Vosso na santa ciência.


ELIPHAS LEVI

 

Éliphas Lévi Zahed (tradução hebraica de Alphonse Louis Constant) - (1810 - 1875)

 

Estas cartas de Éliphas Lévi foram fornecidas por um dos seus discípulos, o Sr. Montaut. Foram publicadas pela primeira vez na revista L'Initiation em 1891.